Era inverno de 2009 e o frio intenso de agosto tomava conta
daquela pequena cidade de interior. Final de tarde de sexta feira e o jovem
pensou que seria interessante ter um bom livro para ler naquele final de
semana.
A biblioteca da cidade era seu lugar preferido, mas naquele
dia em especial ele queria um livro diferente, e começou a caminhar por entre as
prateleiras em busca de um título que chamasse sua atenção.
Percebeu que ao fundo, sentado atrás de uma escrivaninha antiga,
havia um homem. Os cabelos grisalhos tornavam sua aparência de mais idade do
que ele realmente possuía. Aproximou-se e notou que ele estava
escrevendo, mas não datilografando ou digitando. Era manuscrito e diretamente
nas páginas do livro. Perguntou-lhe sobre o que escrevia, mas ele sem responder,
apenas estendeu-lhe o livro.
Tocando no livro, sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo,
como se algo o conectasse a ele. Olhou a capa. Não havia título impresso.
Perguntou:
- Posso ler?
- Claro - foi a resposta.
Logo na contracapa, leu:
“Assim como a semente que germina e com grande euforia cresce
para a vida, assim essa história se desenvolve e chega ao seu auge que é o amor”.
Continuou folheando:
“Havia uma pequena planta, delicada, sensível e apaixonada pela vida. Deliciava-se com os perfumes da natureza. Observava intrigada as pequenas formigas que passavam apressadas em idas e vindas pelo seu caminho.
Admirava o por do sol, mas o amanhecer a encantava ainda
mais. Com ele a vida renascia e as garças azuis anunciavam que era mais um dia.
Por ser muito frágil,
muitas vezes o sol abrasante suas folhas
secava e o vento impiedoso fazia-a prostrar-se ao chão. Mas em tudo havia o
bem, pois a chuva macia, sobre ela caia e a fazia revigorar e como incansável
guerreira, levantava-se, contava as folhas perdidas, e imponente mostrava o seu vigor.
Um lindo botão de flor desabrocha e por sua natureza
descobre no jovem o verdadeiro amor.
A natureza segue seu curso e a linda flor murcha e cai.
Lágrimas e mais lágrimas, pois o seu tempo está chegando ao fim.
A pequena planta levanta-se com dificuldade para encantar-se
com o por do sol. Ela sente que será o último de sua breve existência. Admira-o
como se fosse o primeiro. Nuvens coloridas formam-se no céu, jateadas pelos últimos
raios do sol. As montanhas caladas apreciam o mais belo espetáculo da terra e
sem temor o sol está a se por. O reflexo no mar torna céu e água em uma só cor.
Pássaros dão suas
últimas revoadas buscando lugar para abrigar-se durante a noite. Peixes saltam
aqui e acolá em uma dança de boas vindas a mais uma noite que chega.
Passa por ali o jardineiro, que olhando para a flor
cabisbaixa, não lhe pergunta o que há. Pensa ele ser a flor ingrata, pois
tamanho presente de Deus se apresenta e sem sequer pensar na dor da pobre flor,
arranca-lhe até a raiz.
A lua aparece faceira, mas procurando por sua amiga, encontra-a
aos pedaços ao chão. Toma-a nos braços com o intuito de refrescá-la e fazê-la
reviver. Diz palavras de amor – quem sabe o que poderia ajudá-la?
O jardineiro não se importa e diz à lua que ela é uma
boboca. A lua abraça sua amiga, que sem mais forças expira e com ela, o segredo
de um amor juvenil.
O tempo irá fazer o insensível jardineiro, que com cãs
brancas, lembrar da flor ao por do sol, e com dor no coração desejará
tê-la de volta. Mas o tempo, sempre o tempo, este que mostra todas as coisas,
lhe dirá intrépido que a história acabou e que se o amor ele perdeu, foi porque ele
escolheu”.
Ao terminar a leitura, o jovem parecia estarrecido.
Volta-se para o escritor e pergunta-lhe como pode ser o auge
da flor o amor, se há tanta dor? Não poderia haver outro fim?
Não há respostas. Nunca há.
Ainda intrigado, pergunta-lhe:
- Qual título você dará ao seu livro?
Ao que sabiamente ele responde:
- A última palavra do
livro ainda não foi escrita e somente após esta palavra se dará o título.
-E qual será esta palavra? – pergunta curioso.
Com um sorriso maroto, diz o autor:
-Qual você escolheria: AMOR? DOR? ou simplesmente FIM?
O jovem não sabia o que responder. Havia lido tantos livros,
mas naquele momento, nenhuma boa sugestão lhe vinha em mente.
Estava cabisbaixo, pensando na flor, que em sua curta
existência, havia amado incondicionalmente o jardineiro.
Ao despedir-se do autor, este, olhando-o nos olhos,
entrega-lhe um presente: um vaso com uma flor.

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