sábado, 3 de agosto de 2019

Te apresento meu pai

No mês de maio, tão logo terminou a apresentação do dia das mães, iniciamos os ensaios da música para o clip do dia dos pais.
Foram muitos ensaios, seleção de vozes, grupos de gravação, horas e mais horas de estúdio.
As crianças foram formidáveis, pois mesmo cansadas continuavam e se esforçaram muito para que a gravação fosse um sucesso.
Depois do estúdio, a gravação das imagens, o que nos custou um domingo todo de trabalho, iniciando as 7 da manhã e encerrando quando o sol se punha e já não havia luz suficiente para mais imagens.
Em todos esses momentos vinham a minha mente lembranças de meu pai, mas que eram rapidamente colocadas de lado para que o trabalho pudesse continuar e para que eu pudesse me concentrar nos detalhes e não deixar passar nada para que no momento da edição das imagens nada ficasse falho.
Havia uma equipe trabalhando e isso fazia também com que a mente sempre estivesse ocupada conversando sobre o melhor a ser feito.
O clip ficou pronto. Me emocionei assistindo.
Lançamos 1 mês antes do dia dos pais para que aqueles que quisessem, poderiam usar a música em suas igrejas ou escolas.
Quinta-feira(01) fizemos o lançamento do clip junto com o coral Kids em uma transmissão ao vivo pelo instagram.
Mas o dia dos pais se aproxima e não posso impedir que o tempo siga seu caminho e me obrigo a enfrentá-lo.
Pensar em meu pai me enche de saudades e ao mesmo tempo em que parece que foi ontem que tudo aconteceu, por outro lado parece que faz séculos que o passado ficou pra trás e que entrei em uma rotina totalmente diferente e a vida segue em ritmo super acelerado e não me parece ter sido assim anteriormente.
Cheguei aqui em Janeiro. Parece que já vivi toda uma vida aqui.
Vejo fotos do meu pai e parecem antigas, gostaria de dizer para ele que as roupas dele poderiam ser renovadas e que já não estão mais tanto na moda, mas isso não é mais possível.
O silêncio da casa me fez reencontrar minhas playlists do Youtube e ouvir músicas que há anos eu não ouvia e assim retorno a 2009, 2010, e chego em 2012, quando a morte bateu forte na minha cara e me nocauteou, e no processo de recuperação deixei muitas coisas para traz, decidi seguir sozinha, muito embora forçadamente, mas não tive outra opção. Acredito que faz parte da vida e decidi não brigar mais com ela.
Fiz as pazes com Deus e talvez meu processo de conversão devesse ter que passar por toda essa dor.
Meu pai, meu melhor amigo. Quantas saudades.
Teria tanto pra conversar e tantas perguntas pra fazer.
Mudei, amadureci.
Talvez a idade esteja me tornando assim e como gostaria de retornar ao passado e perguntar coisas, e ter conversas mais longas ainda do que as que tínhamos.
Eu detestava política e esse assunto não fazia parte de nossas conversas, até porque eu era totalmente analfabeta nesse assunto e meu pai não queria nos envolver naquilo que ele entendia de mais perigoso para qualquer um de seus filhos. Sempre entendi isso como proteção, mesmo quando meu tio, Deputado Agostinho Mignoni insistia para que meu pai permitisse que o W. entrasse na política. Acho que meu pai queria nos preservar.
Hoje teríamos longas conversas e eu lhe pediria pra clarear minha mente sobre aqueles momentos políticos conturbados da década de 50 e 60.
Contudo, o passado não volta e as respostas que quero jamais serão ditas.
A tia Oliva faleceu alguns meses atrás. Lembro que quando o tio Olivo faleceu logo depois do meu pai, eu fui abraçá-la. Eu precisava de um abraço de um Mignoni o mais próximo de meu pai. Na realidade, eu queria um abraço do meu pai através dela. Abracei ela com força, buscando no acolhimento dela o meu pai. Acho que foi uma das coisas mais frustrantes que fiz. Apesar de ser uma Mignoni, minha tia não era meu pai e o abraço dela não era o dele.
Coisas estúpidas, mas que um coração dolorido é capaz de fazer.
Anos já se passaram. A vida seguiu por caminhos inimagináveis até aqui.
Eu não planejei por isso, mas tenho certeza de que Deus me preparou para este momento.
Enfim, a saudade aperta, mas o que posso fazer? Gostaria de te apresentar meu pai, mas não posso mais, não por enquanto, mas no Céu com certeza sim. Essa é a maior de todas as esperanças.



Vivendo

Notas bem articuladas soam alcançando o espaço da alma
A melodia conhecida espalha-se por todo lugar
A paz trazida pela música transforma e acalma
Os compassos tranquilos provocam o cantarolar

A sintonia do coração com a melodia
Refletem a alma recheada de terna harmonia
Da paz que vem do céu repleto de estrelas brilhantes
Que neste momento parecem seres dançantes

Neste momento de euforia
Onde se extravasa a alegria
Recordo de tempos vividos
e dos belos dias transcorridos

alegres
faceiros
corriqueiros
pioneiros

E nessa imensidão permanece imersa
A dor da saudade daqueles dias
Em que o calor do abraço
Simplesmente satisfazia

Assim termino esta poesia
Saudosista mas com alegria
Pois sem esperança tudo seria nostalgia
E minh'alma só amargaria

Volto a pensar na alegria....