Hoje meu pai completaria 81 anos.
Já faz 3 anos e 9 meses que ele se foi.
Estive no cemitério.
Meu irmão havia deixado flores lá (meu irmão é muito
cuidadoso e atencioso e sempre mantém o túmulo do meu pai bonito e bem
arrumado).
O tempo passa, e a vida continua num frenesi que estes 4 anos se foram rápidos demais.
Confesso que busco meios para sobreviver a perdas e o melhor que encontrei para mim foi estudar. Foi ler.
Esse hábito me ajudou a superar a dor e o vazio que se formou em mim. Estudei ciência política. Li bons livros e alguns deles me ajudaram a reencontrar Deus.
Desde então, sigo em frente, pelo caminho que irei trilhar, com a certeza de uma bússola.
Mas algumas coisas acontecem, talvez para ainda me lembrar que sou humana e não máquina.
Uma manhã acordei. Era janeiro de 2013. Olhei para o teto e era o do meu quarto. Suspirei aliviada quando percebi que tudo o que eu havia vivido até então não passara de um terrível pesadelo. Respirei aliviada por saber que estava com meus 15 anos e segura em meu quarto. Me virei na cama, pra poder continuar com aquele sentimento fantástico de alívio que havia se apossado de mim. Mas quando me virei, abri os olhos, e já não era o teto do meu quarto que eu via, mas sim as paredes e guarda roupas do meu quarto em Floripa.
Desesperei. Eu quis voltar. Mas o fato é que a vida real havia se imposto e estava me mostrando que a dor era a minha realidade.
Sempre desejei voltar naquele tempo. Sempre desejei que toda a dor não passasse de um pesadelo, e que a paz e a alegria que eu sempre vivi, pudessem voltar a fazer parte de mim.
Esta semana, enquanto lia um e-mail, sentada ainda à mesa, logo após o almoço, em uma fração de segundos eu voltei a 2009. Senti uma dor forte no peito, as palavras embaçaram, e senti meu pai atrás de mim.
A sensação era a mesma: de que eu estava em casa, de que eu havia voltado de um grande pesadelo e de que minha vida fluía a partir dali.
Tentei respirar fundo pra não perder nada, para que aqueles milésimos pudessem ser prolongados e eu estar bem outra vez.
Essa sensação de poder voltar a um tempo que já não existe mais, me fez sentir como se eu vivesse uma vida paralela a que realmente é minha.
Se eu acreditasse em vidas paralelas, pensaria que a minha existe. E mais, se eu acreditasse em almas vagando pelo mundo, acreditaria que meu pai esteve comigo.
Mas nada disso existe.
A realidade é onde realmente estou.
Confesso, que tanto no primeiro momento, quanto no segundo, chorei amargamente.
Como se o tempo que vivo é só emprestado e que não pertenço a ele.
O triste é que não posso voltar. Não posso estar novamente no passado e muito menos sentir aliviada o cheiro da paz que não tenho mais. Não aquela. Hoje tenho outra paz, reconstruída, reformada, com cicatrizes ao fundo, que jamais sairão dali.