Lembro que desde que eu era muito pequena, aos sábados a
tarde ele levava eu, meu irmão e minha irmã pra fazermos “aventuras”. Não
tínhamos carro e íamos a pé.Talvez nessa época eu tivesse uns 4 ou 5 anos. Minha
mãe preparava algum lanche, o suco era sempre limonada que colocávamos na
lancheira da escola. Às vezes meu pai
levava algumas canas e seguíamos rumo ao nosso destino. Nossa primeira parada
era em um mirante, que ficava na rua de cima da nossa casa, onde havia 3
banquinhos de cimento, pequenos, q só dava pra uma criança sentar, mas de onde tínhamos uma vista bonita da cidade.Sentávamos, tomávamos
suco ou meu pai descascava cana e repartia em pedaços pequenos para os 3
filhos. Seguíamos subindo o morro, e a próxima parada era a gruta: uma rocha
alta, com cara de entrada de caverna em que os católicos transformaram em
santuário, colocando ali algumas imagens, que pra mim eram assustadoras. Sempre
tive medo delas: não havia olhos pintados nelas e o cheiro das velas queimando
me passava uma impressão de terror e morte. Meu pai nos ensinava a respeitar a
fé dos outros. Ele havia sido católico desde a infância até a fase adulta
quando abraçou a fé adventista. De qualquer forma, chegar até a gruta
era um grande desafio de caminhada.
Crescemos e as distâncias aumentaram. Meu pai adorava jogar
bola. Tinha sido jogador amador, um bom time com muitos troféus e agora nossa
jornada se estendia até o campinho do loteamento, como chamávamos. Era no topo
do morro. Não havia casas por perto, somente o campo de futebol, bem gramado,
com traves onde várias pessoas e alguns times de bairro iam jogar futebol. Mas
geralmente aos sábados a tarde não havia ninguém, então o campo era nosso. Isso
se seguiu por longos anos, até quando eu já era “adulta” lá pelos meus 20 e
tantos anos. Ir para o loteamento significava diversão. Agora já éramos em 5 irmãos,
todos com o pé na bola e com um time maior, bater bola ficava muito mais
divertido. Nesta época minha mãe nos acompanhava. Ela não jogava bola, mas
fazia companhia.
Tínhamos um fusca branco e ali também era um bom lugar pra
treinarmos e meu pai dava dicas – um tanto nervoso – de como dirigirmos melhor.
Mesmo assim, eu ainda preferia a bola. Gostava mais de driblar do que ficar
brincando de gol, até porque meu irmão sempre pegava as bolas fracas que eu
jogava. Não tinha graça...hehehehe
Neste tempo de criança e adolescente, nos verões nossas
aventuras eram no sitio do tio Kurt. Íamos nadar no rio. Mesmo sendo verão, a
água era muito gelada, mas eu adorava aquela paisagem que me vislumbrava. Para
cada lugar que eu olhava havia um mundo único, especial: as rochas próximas do
rio, as árvores cheias de musgos, os cipós sobre a água, algumas flores que
jamais vi em outro lugar, as quedazinhas de água que em minha mente eu
transformava em grandes cachoeiras para as formigas, a grama que chegava até a
água e os aromas todos misturados, frescos que só o mato tem.
Depois mudamos pra Grafunda. Um pouco mais longe de casa,
passávamos o domingo todo lá. Açude de manhã, churrasco, descanso, bola, açude
de novo, lanche e volta pra casa. Por muitos verões fizemos isso todos os
domingos e nos divertíamos na companhia dos primos e tios.
Mas meu pai não sossegava com as aventuras dele. Ele não era
maluco e tinha um cuidado exarcebado para com os filhos. Saltar do trampolim,
mergulhar, nadar...ele sempre estava por perto ou mandava minha mãe vigiar.
Íamos também pra Seara, terra natal de meu pai. Era muito legal visitarmos os tios, primos e outros parentes, que não importava o grau de parentesco, é sempre parente e sempre recebido como família.
Algumas vezes meu
pai dizia: vamos fazer aventura! Enfiávamos-nos no fusqueta e lá íamos nós
subindo e descendo morros íngremes, muitas vezes por caminhos onde só passava carroça, por rios sem ponte, mas sempre
chegávamos a algum lugar, a casa de algum parente ou amigo de infância dele, e
sempre tinha uva, melancia, melão, bolachas com glacê e bolinhas coloridas ou queijo. Cachorros, gatos, galinhas e
porcos aos montes. Eu gostava dos porquinhos que tinham brinco. Os chiqueiros
ainda eram de madeira, e os animais ali criados eram somente para o consumo da família,
então os bichos eram mais felizes e era muito engraçado olhar pro fucinho
deles, porque parecia que eles estavam sempre rindo. Ah...esqueci de dizer, mas
sempre antes de entrar em algum chiqueiro, como uma boa menina da cidade, eu
trancava a respiração e entrava lá prá ver os porquinhos...
Banheiro era “patente”, e só perdi o medo daquela bendita
casinha quando eu já era grande. Morria de medo de cair lá dentro e meus primos
e primas riam de mim.
Mas as aventuras eram inesquecíveis. Sair do nosso estilo
de cidade pra conhecermos um mundo novo, que na verdade eram nossas raízes,
com um tipo de vida que jamais viveríamos, mas que era o dia a dia de muitos
parentes assim como havia sido por muitos anos de meu pai e meus nonos.
Conhecer vidas, realidades diferentes da minha, com costumes
diferentes, com um sotaque de italiano que só havia lá, isso sem contar que
nos zoavam por não conseguirmos conversar na mesma língua que eles, o que pra
eles parecia impossível, já que meu pai falava no dialeto italiano com eles e
como os filhos não? As diferenças se ampliavam na alimentação, com muito
tempero, saladas nadando no vinagre de vinho e muita carne – contraste com a
alimentação mais saudável que minha mãe propunha na nossa casa – mas que eu
adorava. Não havia comida melhor do que a das tias italianas. Dormir em colchão
de palha no sótão e não haver luz elétrica em casa eram pra mim coisas
fascinantes. Eu não entendia como eles podiam viver sem televisão, e o rádio
era só a pilha e usado com cuidado para ouvir a missa e as notícias. Eu absorvia tudo aquilo
como uma grande aventura que meu pai estava propondo.
Aprendi que as diferenças são costuradas pelos
laços de amizade e afeto e pela palavra família, que não importasse o grau de
parentesco, éramos da mesma "gente" e isso me encantava sempre.
As aventuras com meu pai continuaram por muito tempo e mesmo
depois de eu estar casada, ele dizia: hoje quero te
levar pra ver tal lugar ou tal bairro e lá íamos nós dois pra passear um pouco
e descobrir como nossa cidade estava crescendo e como cidades vizinhas também
estavam se desenvolvendo.
Ele me ensinou a ser uma apaixonada pela vida, pelos cheiros do mato, pela natureza, pelas pessoas não importando o quão diferentes sejam de mim e a fascinação que ele tinha por tudo isso e pelas aventuras simples, sem sofisticações, mas com grandes lições para a vida, me ajudaram a ser a pessoa que sou e mais grata ainda sou pelo grande amigo que ele sempre foi para mim.
Saudades das aventuras, saudades do meu grande amigo, saudades da minha vida que busco reconstruir, sem ele.
Pai, te amo sempre!







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