quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

AVENTURAS



Acordei pensando no meu pai.
Lembro que desde que eu era muito pequena, aos sábados a tarde ele levava eu, meu irmão e minha irmã pra fazermos “aventuras”. Não tínhamos carro e íamos a pé.Talvez nessa época eu tivesse uns 4 ou 5 anos. Minha mãe preparava algum lanche, o suco era sempre limonada que colocávamos na lancheira da escola.  Às vezes meu pai levava algumas canas e seguíamos rumo ao nosso destino. Nossa primeira parada era em um mirante, que ficava na rua de cima da nossa casa, onde havia 3 banquinhos de cimento, pequenos, q só dava pra uma criança sentar, mas de onde tínhamos uma vista bonita da cidade.Sentávamos, tomávamos suco ou meu pai descascava cana e repartia em pedaços pequenos para os 3 filhos. Seguíamos subindo o morro, e a próxima parada era a gruta: uma rocha alta, com cara de entrada de caverna em que os católicos transformaram em santuário, colocando ali algumas imagens, que pra mim eram assustadoras. Sempre tive medo delas: não havia olhos pintados nelas e o cheiro das velas queimando me passava uma impressão de terror e morte. Meu pai nos ensinava a respeitar a fé dos outros. Ele havia sido católico desde a infância até a fase adulta quando abraçou a fé adventista. De qualquer forma, chegar até a gruta era um grande desafio de caminhada.

Crescemos e as distâncias aumentaram. Meu pai adorava jogar bola. Tinha sido jogador amador, um bom time com muitos troféus e agora nossa jornada se estendia até o campinho do loteamento, como chamávamos. Era no topo do morro. Não havia casas por perto, somente o campo de futebol, bem gramado, com traves onde várias pessoas e alguns times de bairro iam jogar futebol. Mas geralmente aos sábados a tarde não havia ninguém, então o campo era nosso. Isso se seguiu por longos anos, até quando eu já era “adulta” lá pelos meus 20 e tantos anos. Ir para o loteamento significava diversão. Agora já éramos em 5 irmãos, todos com o pé na bola e com um time maior, bater bola ficava muito mais divertido. Nesta época minha mãe nos acompanhava. Ela não jogava bola, mas fazia companhia.
Tínhamos um fusca branco e ali também era um bom lugar pra treinarmos e meu pai dava dicas – um tanto nervoso – de como dirigirmos melhor. Mesmo assim, eu ainda preferia a bola. Gostava mais de driblar do que ficar brincando de gol, até porque meu irmão sempre pegava as bolas fracas que eu jogava. Não tinha graça...hehehehe


Neste tempo de criança e adolescente, nos verões nossas aventuras eram no sitio do tio Kurt. Íamos nadar no rio. Mesmo sendo verão, a água era muito gelada, mas eu adorava aquela paisagem que me vislumbrava. Para cada lugar que eu olhava havia um mundo único, especial: as rochas próximas do rio, as árvores cheias de musgos, os cipós sobre a água, algumas flores que jamais vi em outro lugar, as quedazinhas de água que em minha mente eu transformava em grandes cachoeiras para as formigas, a grama que chegava até a água e os aromas todos misturados, frescos que só o mato tem.
Depois mudamos pra Grafunda. Um pouco mais longe de casa, passávamos o domingo todo lá. Açude de manhã, churrasco, descanso, bola, açude de novo, lanche e volta pra casa. Por muitos verões fizemos isso todos os domingos e nos divertíamos na companhia dos primos e tios.


Mas meu pai não sossegava com as aventuras dele. Ele não era maluco e tinha um cuidado exarcebado para com os filhos. Saltar do trampolim, mergulhar, nadar...ele sempre estava por perto ou mandava minha mãe vigiar.


Íamos também pra Seara, terra natal de meu pai. Era muito legal visitarmos os tios, primos e outros parentes, que não importava o grau de parentesco, é sempre parente e sempre recebido como família. 
 Algumas vezes meu pai dizia: vamos fazer aventura! Enfiávamos-nos no fusqueta e lá íamos nós subindo e descendo morros íngremes, muitas vezes por caminhos onde só passava carroça, por rios sem ponte,  mas sempre chegávamos a algum lugar, a casa de algum parente ou amigo de infância dele, e sempre tinha uva, melancia, melão, bolachas com glacê e bolinhas coloridas ou queijo. Cachorros, gatos, galinhas e porcos aos montes. Eu gostava dos porquinhos que tinham brinco. Os chiqueiros ainda eram de madeira, e os animais ali criados eram somente para o consumo da família, então os bichos eram mais felizes e era muito engraçado olhar pro fucinho deles, porque parecia que eles estavam sempre rindo. Ah...esqueci de dizer, mas sempre antes de entrar em algum chiqueiro, como uma boa menina da cidade, eu trancava a respiração e entrava lá prá ver os porquinhos...
Banheiro era “patente”, e só perdi o medo daquela bendita casinha quando eu já era grande. Morria de medo de cair lá dentro e meus primos e primas riam de mim.

Mas as aventuras eram inesquecíveis. Sair do nosso estilo de cidade pra conhecermos um mundo novo, que na verdade eram nossas raízes, com um tipo de vida que jamais viveríamos, mas que era o dia a dia de muitos parentes assim como havia sido por muitos anos de meu pai e meus nonos.
Conhecer vidas, realidades diferentes da minha, com costumes diferentes, com um sotaque de italiano que só havia lá, isso sem contar que nos zoavam por não conseguirmos conversar na mesma língua que eles, o que pra eles parecia impossível, já que meu pai falava no dialeto italiano com eles e como os filhos não? As diferenças se ampliavam na alimentação, com muito tempero, saladas nadando no vinagre de vinho e muita carne – contraste com a alimentação mais saudável que minha mãe propunha na nossa casa – mas que eu adorava. Não havia comida melhor do que a das tias italianas. Dormir em colchão de palha no sótão e não haver luz elétrica em casa eram pra mim coisas fascinantes. Eu não entendia como eles podiam viver sem televisão, e o rádio era só a pilha e usado com cuidado para ouvir a missa e as notícias. Eu absorvia tudo aquilo como uma grande aventura que meu pai estava propondo.
Aprendi que as diferenças são costuradas pelos laços de amizade e afeto e pela palavra família, que não importasse o grau de parentesco, éramos da mesma "gente" e isso me encantava sempre.



As aventuras com meu pai continuaram por muito tempo e mesmo depois de eu estar casada, ele dizia: hoje quero te levar pra ver tal lugar ou tal bairro e lá íamos nós dois pra passear um pouco e descobrir como nossa cidade estava crescendo e como cidades vizinhas também estavam se desenvolvendo.


Ele me ensinou a ser uma apaixonada pela vida, pelos cheiros do mato, pela natureza, pelas pessoas não importando o quão diferentes sejam de mim e a fascinação que ele tinha por tudo isso e pelas aventuras simples, sem sofisticações, mas com grandes lições para a vida, me ajudaram a ser a pessoa que sou e mais grata ainda sou pelo grande amigo que ele sempre foi para mim.



Saudades das aventuras, saudades do meu grande amigo, saudades da minha vida que busco reconstruir, sem ele.

Pai, te amo sempre!

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