terça-feira, 15 de outubro de 2013

PARA UM TIO ESPECIAL

De: Wesley Zukowsky
Para: Anselmo Antonio Mignoni


Tio Anselmo:
Soube hoje de tua situação, muito embora já há alguns dias venho ouvindo de meu pai, preocupações com respeito a tua saúde. Por isso quero dividir contigo algumas lembranças que guardo com muito carinho de tua pessoa e da tua família pela qual você lutou durante toda sua vida.
Desde pequeno ficava muito feliz quando se anunciava lá em casa: “vamos à casa do tio Anselmo”. Isto significava brincar no lote mais botânico que eu conhecia. Lá tinha laranja, bergamota, ameixa, uva, romã e outras coisas que nem me lembro. Além disso podíamos brincar com o “guigo” que além de grande amigo, sempre tinha idéias criativas,  bons assuntos pra animar a conversa e um jipinho vermelho de bombeiros com uma escadinha do lado onde tive minhas primeiras noções de direção. E foi você que me ensinou como pedalar e dirigir aquele carrinho maravilhoso que você comprara com sacrifício no natal de 1970(se não estou enganado), para dar uma infância mais feliz para seu primogênito.
Muitas vezes eu ia com meu irmão Udolcy ou com a família toda passear em tua casa onde além de brincar eu podia assistir Rin-tin-tim porque você já tinha uma Telefunkem Preto e Branco que era a atração da gurizada. Mas não era só por isso que eu gostava de lá. Voce transmitia vibração no seu jeito animado de falar. Contar as histórias do Sandú(que nem sei o que era) do trabalho no INPS, do dia que alguém quis pagar para passar a mão no teu cabelo espetado e você não aceitou. Mas principalmente das conversas sobre o Inter o melhor time, e o Manga, o melhor goleiro do mundo; assim acreditava eu pelo que você falava.
Me lembro também da primeira reforma da tua casa e a dedicação com que orientava o pedreiro para fazer o serviço. Você sempre procurou melhorar o ambiente onde criava teus filhos. E quando comprou seu primeiro carro: o famoso fusca 1200. Quanta festa. Agora vocês podiam ir pra Grafunda e tantos outros lugares.
Mas nem tudo foi perfeito. Lembro quanto orávamos em casa pelo Welington quando bem pequeno e tinha que tomar os “malditos” antibióticos. Depois quando a Kei teve o olhinho ferido e vocês viviam indo a Florianopolis para tentar o que havia de melhor na época em tratamento oftalmológico. Até hoje me lembro o quanto você e a tia Helena sofreram. Graças a Deus tudo foi superado.
Apesar de tudo você continuou lutando pelo bem mais precioso que você tinha: seus filhos. Me lembro o quanto vocês incentivavam e exigiam que eles estudassem. Tua visão de futuro foi fundamental para o crescimento deles. Entendo que pela tua infância sofrida, na roça, indo pra escola perto de Seara, de pé no chão mesmo em dia de geada, você não quis que teus filhos passassem as mesmas dificuldades que você. Você investiu o que tinha no futuro deles. Por isso nunca enriqueceu, mas hoje teus filhos são as jóias mais raras do teu patrimônio.
Alem do estudo você cobrou de teus filhos o estudo da música, porque talvez já soubesse o quanto isso promove o desenvolvimento de um caráter mais nobre e uma personalidade mais brilhante. Não fique triste que o Stiven não quis mais estudar piano na adolescência. Ele tinha outros tipos de inteligência que fervilhavam em seu cérebro, e hoje ele traz tanto orgulho pra você, como os demais filhos. Mesmo porque nesta terra salvar vidas é mais urgente do que tocar piano. Lá no céu a família Mignoni vai formar a orquestra com que você tanto sonhou.
Te admiro  muito também porque você alem de incentivar os filhos, você fez de tudo para que a tia Helena não parasse de estudar. Voce não permitiu que os deveres da casa e os compromissos de uma mãe fossem um bloqueio para o crescimento intelectual dela. Aliás se não me engano ela foi colega de faculdade da filha. E isso mostra que pra você idade nunca foi barreira para estudar.
E as pescarias? Lembra quantos lambaris você pegava em um dia?
E os pic-nics, na grafunda, nos padres, na tia Erna; onde você tentava fazer dos domingos um dia especial para sua família, acho que eles nunca esquecerão disso.
E a primeira igreja de alvenaria de Joaçaba? Lembro da tua empolgação na campanha para a construção, mesmo que na época você não era muito assíduo, mas o teu coração estava lá. E o conjunto que ensaiava toda sexta na tua casa? Por um tempo você  participou também. E tinha um belo de um baixo.
São tantas lembranças, belas recordações. Talvez eu não conseguisse te falar tudo pessoalmente. Por isso decidi escrever. Se Deus permitir gostaria que você soubesse de tudo isso. Das marcas positivas que você causou na vida de um sobrinho.
Não sei quanto tempo Deus reservou para cada um de nós aqui nesta terra. Não sei também se ainda nos encontraremos aqui. Mas fico feliz de pelo menos tentar te dizer estas palavras. Se não, a volta de Cristo será nosso ponto de reencontro. Lá teremos a eternidade para relembrar os melhores momentos desta velha terra, sabendo que os momentos difíceis que nos causaram dor ficarão no esquecimento.
Abraços do sobrinho Chuca.
12/03/2012
 


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