Para: Anselmo Antonio Mignoni
Tio Anselmo:
Soube hoje de tua situação, muito
embora já há alguns dias venho ouvindo de meu pai, preocupações com respeito a
tua saúde. Por isso quero dividir contigo algumas lembranças que guardo com
muito carinho de tua pessoa e da tua família pela qual você lutou durante toda
sua vida.
Desde pequeno ficava muito feliz
quando se anunciava lá em casa: “vamos à casa do tio Anselmo”. Isto significava
brincar no lote mais botânico que eu conhecia. Lá tinha laranja, bergamota,
ameixa, uva, romã e outras coisas que nem me lembro. Além disso podíamos
brincar com o “guigo” que além de grande amigo, sempre tinha idéias
criativas, bons assuntos pra animar a
conversa e um jipinho vermelho de bombeiros com uma escadinha do lado onde tive
minhas primeiras noções de direção. E foi você que me ensinou como pedalar e
dirigir aquele carrinho maravilhoso que você comprara com sacrifício no natal
de 1970(se não estou enganado), para dar uma infância mais feliz para seu
primogênito.
Muitas vezes eu ia com meu irmão
Udolcy ou com a família toda passear em tua casa onde além de brincar eu podia
assistir Rin-tin-tim porque você já tinha uma Telefunkem Preto e Branco que era
a atração da gurizada. Mas não era só por isso que eu gostava de lá. Voce
transmitia vibração no seu jeito animado de falar. Contar as histórias do
Sandú(que nem sei o que era) do trabalho no INPS, do dia que alguém quis pagar
para passar a mão no teu cabelo espetado e você não aceitou. Mas principalmente
das conversas sobre o Inter o melhor time, e o Manga, o melhor goleiro do
mundo; assim acreditava eu pelo que você falava.
Me lembro também da primeira
reforma da tua casa e a dedicação com que orientava o pedreiro para fazer o
serviço. Você sempre procurou melhorar o ambiente onde criava teus filhos. E quando
comprou seu primeiro carro: o famoso fusca 1200. Quanta festa. Agora vocês
podiam ir pra Grafunda e tantos outros lugares.
Mas nem tudo foi perfeito. Lembro
quanto orávamos em casa pelo Welington quando bem pequeno e tinha que tomar os
“malditos” antibióticos. Depois quando a Kei teve o olhinho ferido e vocês
viviam indo a Florianopolis para tentar o que havia de melhor na época em
tratamento oftalmológico. Até hoje me lembro o quanto você e a tia Helena
sofreram. Graças a Deus tudo foi superado.
Apesar de tudo você continuou
lutando pelo bem mais precioso que você tinha: seus filhos. Me lembro o quanto
vocês incentivavam e exigiam que eles estudassem. Tua visão de futuro foi
fundamental para o crescimento deles. Entendo que pela tua infância sofrida, na
roça, indo pra escola perto de Seara, de pé no chão mesmo em dia de geada, você
não quis que teus filhos passassem as mesmas dificuldades que você. Você
investiu o que tinha no futuro deles. Por isso nunca enriqueceu, mas hoje teus
filhos são as jóias mais raras do teu patrimônio.
Alem do estudo você cobrou de
teus filhos o estudo da música, porque talvez já soubesse o quanto isso promove
o desenvolvimento de um caráter mais nobre e uma personalidade mais brilhante.
Não fique triste que o Stiven não quis mais estudar piano na adolescência. Ele
tinha outros tipos de inteligência que fervilhavam em seu cérebro, e hoje ele
traz tanto orgulho pra você, como os demais filhos. Mesmo porque nesta terra
salvar vidas é mais urgente do que tocar piano. Lá no céu a família Mignoni vai
formar a orquestra com que você tanto sonhou.
Te admiro muito
também porque você alem de incentivar os filhos, você fez de tudo para que a
tia Helena não parasse de estudar. Voce não permitiu que os deveres da casa e os
compromissos de uma mãe fossem um bloqueio para o crescimento intelectual dela.
Aliás se não me engano ela foi colega de faculdade da filha. E isso mostra que
pra você idade nunca foi barreira para estudar.
E as pescarias? Lembra quantos lambaris você pegava em um
dia?
E os pic-nics, na grafunda, nos padres, na tia Erna; onde
você tentava fazer dos domingos um dia especial para sua família, acho que eles
nunca esquecerão disso.
E a primeira igreja de alvenaria
de Joaçaba? Lembro da tua empolgação na campanha para a construção, mesmo que
na época você não era muito assíduo, mas o teu coração estava lá. E o conjunto
que ensaiava toda sexta na tua casa? Por um tempo você participou também. E tinha um belo de um
baixo.
São tantas lembranças, belas
recordações. Talvez eu não conseguisse te falar tudo pessoalmente. Por isso
decidi escrever. Se Deus permitir gostaria que você soubesse de tudo isso. Das
marcas positivas que você causou na vida de um sobrinho.
Não sei quanto tempo Deus
reservou para cada um de nós aqui nesta terra. Não sei também se ainda nos
encontraremos aqui. Mas fico feliz de pelo menos tentar te dizer estas
palavras. Se não, a volta de Cristo será nosso ponto de reencontro. Lá teremos
a eternidade para relembrar os melhores momentos desta velha terra, sabendo que
os momentos difíceis que nos causaram dor ficarão no esquecimento.
Abraços do sobrinho Chuca.
12/03/2012
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