A reconciliação por si só pressupõe que houve uma ruptura anterior, pois por óbvio que se não tivesse acontecido, a mesma não seria necessária.
Contudo, o ato da reconciliação requer que ambas as partes o desejem, que no fundo do coração esta vontade esteja lá, mesmo que de forma tênue, quase imperceptível, mas que dado o primeiro sinal de possível entendimento, se manifeste.
Nem sempre os sentimentos são de mesma forma e intensidade entre os reconciliandos ( esta palavra existe?). Alguns conseguem superar a dor e a mágoa com maior facilidade, decorrendo este fato muitas vezes da própria estrutura psicológica da pessoa, sua personalidade e sua ligação com Deus.
Acima destes dons, está ainda a coragem. Este sentimento de enfrentamento, de busca, de superação e principalmente de reparação daquilo que foi quebrado, do coração dilacerado e da paz que já não existe.
Coloco a coragem acima dos outros dons, porque mesmo em não havendo eles presentes, a coragem pode supri-los.
Adere à coragem, o amor. Mas este só será completo depois da reconciliação, portanto não fará parte deste comentário, não neste momento.
Contudo, para que este ato possa se consumar, um primeiro passo precisa ser dado. Um dos agentes magoados precisa se pronunciar. Esta forma sempre é tímida, escolhendo as palavras, percorrendo caminhos novos e encontrando quem sabe do outro lado, alguém tão amadurecido pela dor quanto o primeiro interlocutor.
O tempo dedicado entre ambos e o amor farão com que a reconciliação se opere de forma mansa e tranquila até que ambos atinjam a serena paz que buscam.
A reconciliação com Deus não se dá da mesma forma. Não há dois magoados, feridos e abandonados. Há um só, e sempre é o lado humano.
Deus não virá pedir perdão e nem se prostrará aos seus pés pois Ele não está magoado contigo. O afastamento é nosso. O sentimento humano de raiva, tristeza é só nosso. Não pertence a Deus.
Neste ponto, nos diferenciamos da reconciliação entre humanos da reconciliação com Deus. Pois neste caso, um ser se afastou enquanto o outro permaneceu ao seu lado, esperando por seu olhar. Nossos desgostos imputados a Deus, não cabem a Ele, pois são somente nossos.
A reconciliação está no ser humano caminhar em direção a Deus, e aprender que não há como barganharmos com Ele, nem O colocarmos em nosso próprio nível de conversação, pois não há contratos com Ele em que ambas as partes contribuam com os ônus e os bônus.
Este esvaziar-se de si mesmo, é literalmente perdoar-se e reconhecer que há um só Deus e que o mesmo esteve o tempo todo presente ao seu lado, independente de sua vontade, pois a presença Dele simplesmente é.
Este caminho é lento e gradativo, é a busca pela confiança incondicional que só podemos encontrar no Pai que nos acolhe em seus braços, sempre...sempre...e sempre...não importa quantas vezes, quantas idas e vindas, Ele está sempre nos ouvindo e oferecendo-se a si mesmo por nós.

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