domingo, 5 de fevereiro de 2017

Dias difíceis, alegria dobrada


As mudanças na vida ocorrem paulatinamente e de acordo com decisões que tomamos.

Busco ser feliz. Não busco pela felicidade, pois entendo que ela é puramente consequência de decisões que tomo e da ligação com Deus: quanto mais perto Dele, quanto maior a confiança de que Ele sabe, mais plena é a felicidade.

Desta forma, e vencendo a tristeza interior, também mudei meu modo de escrever, e enquanto antes eu só escrevia quando estava no fundo do poço, agora só consigo escrever quando as batalhas estão vencidas e me sinto leve novamente.

Assim no silêncio venço as duras batalhas às quais sou exposta.

Perdi meu pai 4 anos atrás. Desde então minha preocupação e de meus outros irmãos tem sido com a saúde frágil de minha mãe. Ela é uma guerreira, independente, apesar das limitações e não se entrega ao fracasso ou ao desanimo nunca. Isso tem sido causa dela continuar vivendo.

Passamos o Natal no sitio. Confesso que a presença de meus filhos o fez não ser tão ruim quanto de fato foi. E não só para mim, mas no dia programado para voltar pra casa, minha mãe adoeceu, fazendo com que ela e minha irmã também tivessem que voltar.

A situação era grave e eu não tinha ideia do que ela tinha. Em poucas horas ela parecia uma boneca de pano e ainda no sitio, eu e minha irmã a carregávamos para o banheiro e de volta para a cama, por várias vezes, enquanto colocávamos nossa bagagem às pressas no carro para voltarmos para nossa cidade.

Viemos o mais rápido possível e a internação foi imediata. Ela não acordava mais e conjecturávamos da possibilidade de um AVC. Era dia 27/12 e havia poucos médicos na cidade. Contudo, o médico que a atendeu logo pediu todos os exames possíveis para um diagnóstico preciso. Fomos eliminando as suspeitas: não era infecção urinária, tampouco pneumonia. Restava a tomografia, mas não foi preciso. Depois de mais de 12 horas sem acordar, ela abriu os olhos e conversamos por quase uma hora. O diagnóstico inicial do médico de uma possível desidratação foi confirmado.

Os cuidados para com ela aumentaram assim como a dificuldade em engolir também.

A cirurgia de hérnia realizada em julho, apesar do sucesso inicial, agora não se mostrava mais assim, e minha mãe voltou a comer papinha e passou a dormir sentada, pois o estomago havia voltado a subir para o esôfago.

O médico falava em nova cirurgia, a qual queríamos evitar.

Havia uma possibilidade, de através de endoscopia e de um balão (me perdoe a falta de termos técnicos, pois não sou médica), para que, abrindo um pouco a passagem, ela pudesse voltar a engolir normalmente.

E assim iniciou-se uma nova saga, e um desespero emocional que eu só havia experimentado na semana em que meu pai faleceu e que eu sentia que a cada segundo eu o estava perdendo.

Segunda-feira (30/01)
Levei minha mãe para a clinica para fazer aquele procedimento do balão. O médico estava atrasado 1 hora. Perguntei quanto tempo levaria o procedimento, ao que a moça me respondeu que em 40 min. estaria tudo terminado.

Minha mãe foi chamada. Olhei no relógio: 10:43.

Tentei ler um livro. O barulho da TV me incomodava e o programa global só não era tão ruim porque de vez em quando era interrompido para passar as imagens do momento da prisão de Eike Batista.

Mais de uma hora depois, me levantei, agoniada e perguntei porque estava demorando tanto, e lógico que a desculpa poderia ter convencido quem quisesse, menos eu.

Minha mãe saiu do procedimento 1:35 depois que havia entrado. Fui até a sala de recuperação. Ela estava acordada e conversamos. Fiquei feliz, porque parecia que tudo estava bem.

O médico, depois de algum tempo, veio conversar sobre o procedimento. Ele é um excelente médico e deu orientações e disse que minha mãe poderia comer papinha mais alguns dias e ir gradativamente introduzindo alimentos sólidos.

Minha mãe e eu ficamos felizes: ufa! Havia dado certo!.

Então ele disse que minha mãe poderia tomar água quando estivesse mais acordada e pelo horário avançado (quase 1 da tarde) ele se foi.

Minha mãe tomou água, e logo em seguida vomitou.

Quando se recuperou, trouxe ela para casa, mas tudo o que ela comia ou bebia, em seguida vomitava. Ainda no fim da tarde a febre apareceu. Ela queria ir para o hospital. Eu não. Eu queria que ela se acalmasse e ficasse um pouco mais em casa. Eu estava errada. Ela estava piorando.  Liguei para meus irmãos e minha irmã veio para levá-la ao hospital.

No hospital o médico verificou que após o procedimento, havia um inchaço, que ele esperava que sumisse e que ela voltasse a engolir.

Terça-feira (31/01)

Terça-feira passei a tarde no hospital, e no whats com meus irmãos ia conversando com eles sobre a possibilidade de levá-la para Florianópolis. Não éramos unanimes nisto: eu e meus 2 irmãos de Floripa sim, minha irmã não e nunca e o W, disse que poderíamos decidir.

Minha mãe não queria sair daqui. O hospital é bom e o médico também, e ela confiava neles.
Eu também, mas naquela situação eu achava que precisávamos de uma segunda opinião. Em casa à noite, não desgrudei do whats e com meus irmãos esgotávamos as possibilidades. Enfim, quase 10 da noite, o S havia conseguido uma consulta em Floripa. Eu vibrei e logo me programei: se não conseguirmos ambulância, eu levo a mãe. Só que ela entra no grupo e diz: não vou sair daqui.

Era minha noite de dormir com ela. Retornei ao hospital. Quando eu já estava ajeitada pra dormir, ela confessou que o médico já havia feito um pré-agendamento de cirurgia para o dia seguinte. Tentei convencê-la novamente a buscar mais uma opinião. A negativa veio e não dormi a noite toda.

A situação dela se agravava cada minuto.

Quarta-feira (01/02)

Cedo eu tinha compromisso e deixei o hospital. Mais tarde quando cheguei em casa, lendo as mensagens, ela anunciava a cirurgia marcada para aquela tarde.

Desesperei. Liguei pro meu irmão (K) e pedi que ele conversasse com a mãe. Ele também ficou nervoso, mas como filho querido, convenceu minha mãe e assim, às 13 horas daquele dia, tirei minha mãe do hospital, e junto com meu irmão mais velho, levamos a mãe as pressas pra Floripa.

Não preciso dizer da nossa apreensão e peso de responsabilidade pelo que estávamos fazendo. Ela estava sem engolir sequer saliva desde segunda de manhã e sem alimento algum desde domingo. Fazer o que estávamos fazendo era um grito de socorro, de busca de salvação para a minha mãe, que aos poucos desaparecia.

Chegamos em Floripa e a internação já estava preparada, esperando por ela. Meu irmão (S) veio. Rimos nervosamente. Falamos. Calamos.

Depois de jantarmos, voltamos na clinica pra despedirmos de minha mãe. Ela já com soro, me chamou em separado e me deu várias recomendações. Eu olhava para aquele corpo miúdo, sentado na cama, imaginando se aquela seria minha última conversa com minha mãe.

Apesar da cama macia na casa do meu irmão, eu não consegui dormir.
Todos os tipos de pensamentos apareciam em minha mente e apesar do cansaço extremo eles pareciam mais importantes que meu sono.

Floripa....ah! Floripa...

Pensamentos bons, saudades, e de outro lado um turbilhão de apreensões tomavam conta de mim e meu cérebro não conseguia desligar.

Quinta- feira (02/02)

Levantei. Estava escuro ainda, mas era hora de voltar pra casa.

Eu não conseguia parar de falar, e por 5 horas e meia, até chegarmos em casa, enchi os ouvidos do meu irmão, que acredito, ter tido pesadelos comigo depois...


Em Floripa, diagnóstico confirmado. O mesmo que o daqui. Minha mãe desmaiou e o estado de saúde piorou. Mais uma noite de pouco sono.

Sexta-feira (03/02)

Cirurgia marcada. Apreensão. As noites sem dormir não me deixavam raciocinar direito e se me perguntassem meu nome, eu teria dificuldades em responder. Associado a isso, o peso de que se alguma coisa desse errado, eu seria culpada, por ter me esforçado em tirá-la daqui.
Meu irmão W. tentava me acalmar e de certa forma ele conseguiu: pelo menos parei de chorar.

Houve silêncio no nosso grupo de família. Todos estávamos em oração. Todos estávamos aflitos e com o coração na mão.

Por volta das 14:35, meu irmão (S), disse que ela havia saído da cirurgia e que estava no pós operatório e que tudo estava ok.

A luta ainda não terminou, ela continua em tratamento, e ainda só pode engolir líquidos.
Mas o alivio e a alegria foi tanta, que me parece que isso é o de menos.

A narrativa é longa, talvez detalhada demais. Contudo eficaz, para lembrar-me de que a dor passa e que eu não posso senti-la 2 vezes.

Diferentemente do amor, o qual é sentido no passado, no presente e se perpetua para sempre.

Desejo não dias como estes, mas dias como a conclusão destes, em que após a noite escura, o sol voltou a brilhar.




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