Estava atrasada, caminhando muito rápido para o estágio.
Me encontrava completamente absorta em meus pensamentos, elaborando mentalmente os próximos passos para o meu TCC, programando meu escasso tempo de final de semana para isso e imaginando qual livro leria e como faria.
Meus passos eram quase tão rápidos quanto a profundidade dos meus pensamentos quando uma mulher, vindo em sentido contrário, próxima de uma esquina, resmunga qualquer coisa em minha direção.
Meus pensamentos antecipados imaginaram qual seria a pergunta: "será que ela queria saber onde fica a Receita Federal? - duas quadras daqui. Ou o Fórum Estadual? Talvez a própria Justiça Federal???"
Eu não a conhecia, nunca tinha visto antes. Sua aparência era de pessoa pobre, mas não maltrapilha.
Resmungou e passou a mão na barriga e meus olhos acompanharam aquele trejeito.
Eu não entendi o que ela disse.
Questionei:
- Como é que é?
Ela, em voz baixa, quase inaudível, repete o resmungo:
- Você tem algum trocadinho para mim comprar um lanche que ainda não almocei?
Respondi automaticamente que não e segui na mesma velocidade em que estava antes.
Meu cérebro demorou uns 5 passos pra absorver o que havia acontecido naqueles poucos segundos: "ela está com fome e eu acabei de almoçar. Putz, coitada".
Voltei-me, procurando por ela.
Pensei: "Não tenho dinheiro pra dar, mas posso dar a maçã que eu tenho na bolsa, meu lanche da tarde".
Voltei mais 2 passos e não vi mais a mulher, que havia desaparecido depois da esquina.
Me senti mal.
Meus pensamentos já não eram mais sobre meu TCC e sobre a imensidão de livros que teria que escolher para ler no final de semana, mas na minha insensibilidade em não ter ajudado aquela mulher.
Continuei meu caminho conversando com Deus e sobre minha dificuldade em não conseguir dar uma resposta rápida e positiva numa situação como esta.
Eu poderia ter lembrado da maçã...
Gostaria de ser melhor, de ter um sentimento mais ameno, mais agradável e por que não dizer, mais cristão quando se trata de ajudar aos outros.
A única coisa que me traz um pouco de alívio é que, se naquele momento ela tivesse perguntado meu nome, eu teria tido dificuldade em responder.

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