sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Mãe


            Passando pelo quarto da minha mãe e vendo-a dormir sentada, por que não há outra posição para ela descansar, lembro dos tempos com meu pai.
            Lembro dele na cama dormindo sentado e para mim aquela cena era angustiante, pois eu não sabia o que poderia acontecer no próximo momento. Não sabia como ele acordaria e nem se acordaria.
            Eu tinha medo, muito medo de perder meu pai. Mas meu medo não solucionou os problemas de saúde dele, mas me ajudou a ficar atenta a cada respiração dele e a mais leve mudança de comportamento. Isso me fez ser mais ligada e a prestar mais atenção.
            Hoje minha mãe mal conseguiu almoçar. Ela não tem passado bem nos últimos dias. Não que nos últimos dois anos ela tenha estado bem, mas dentro do ruim, há alguns dias que não são tão difíceis e a vida consegue fluir como que normalmente.
            Após sua tentativa de almoçar, ela ao ir deitar me pediu: “se você sair vai antes me ver, porque não estou bem”. Essa frase não é da minha mãe. Ela jamais se entrega, muito pelo contrário, nas últimas vezes em que tivemos que levar ela ao hospital, ela tentava disfarçar o seu estado.
            Contudo, ela pedir pra eu ficar atenta ao estado dela é a mais pura novidade e isso é péssimo. Significa que ela está reconhecendo a fragilidade em que se encontra e não tem conseguido superar, nem mesmo pra nos “enganar”, fazendo de conta que está bem.
            Amanhã ela iniciará uma nova etapa. Mais uma saga, pra dizer a verdade, ou talvez, nem nova, mas prosseguindo na saga que já se estende por todos esses anos.
            Ela está triste, porque sabe o que a espera: pelo menos duas cirurgias. Eu pensava que ela estivesse forte e preparada para isso, mas, quando durante a semana ela pediu que eu e minha irmã fôssemos juntas levar ela, eu me assustei. Não vi mais aquela mãe forte e corajosa, mas sim uma mãe insegura e que não sabe o que acontecerá com ela. Meu filho insistiu pra ir junto – ele adora Floripa, mas ela disse: “não, eu só quero todos os meus filhos lá”. Meu filho entendeu, mas eu chorei por dentro.
            A última cirurgia em Floripa fez com que ela passasse por uma série de situações de em vários momentos tocar os dedos da morte durante aqueles quase 4 meses que permaneceu lá.
            Passei agora mesmo pelo quarto dela. Lá estava ela, magra, um tanto pálida, amparada por travesseiros que não a deixam deitar. Lembrei das inúmeras vezes que vi meu pai da mesma forma.
            Há esperança. Tenho esperança.
            Contudo sei que temos um tempo muito curto aqui na terra. Um privilégio Deus nos ter escolhido para nascer aqui e para sermos testemunhas do que Ele é e podermos influenciar pessoas para o bem, e esse tempo dado a cada um é pequeno, acredito que é para não sofrermos muito, porque nascemos para a eternidade e lá sim é que teremos vida.  
            Enquanto isso, estamos aqui lutando, vivendo e nos tornando fortes, mesmo que essa força venha regada a lágrimas. 

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