Acredito que é muito difícil compreender a dor se ela
nunca foi sentida.
É como tentar explicar a dor aguda do corte do dedo feito por
uma folha de papel. Mas depois que cessa a dor, apesar de poder explicar, não
dá pra senti-la novamente. Não aquela, talvez uma nova dor se cortar novamente
o dedo.
Mas como compreender a dor de alguém que tira a própria vida?
Minha experiência tem me ajudado a compreender esta dor um
pouco melhor.
Sempre me achei uma pessoa feliz.
Na inocência da vida, cheia de sonhos, de boas visões do
futuro e segura de que sempre tudo daria certo.
A vida não é sempre assim.
Sou consequência das muitas
escolhas que fiz e das escolhas de outros que atingiram e impactaram a minha
vida. Sempre resta depois, decidir ainda o que fazer diante das escolhas dos
outros e de como devo deixar que isso determine os rumos da minha vida.
Após 2007, apesar de lutar duramente, buscando coisas que me
dessem algum sentido para continuar, eu estive em depressão. Fiz vários
tratamentos com medicamentos diferentes, e sempre busquei ter bons pensamentos,
apesar do sofrimento.
Não obstante algumas vezes me sentir melhor, eu estava
afundando cada vez mais, e minha situação tornou-se insuportável quando perdi
meu pai e quando tive a certeza de que o homem que eu amava jamais poderia estar
comigo novamente.
Neste tempo, briguei com Deus e exatamente em 07 de julho de
2013, escrevi:
“Já chorei, gritei, prostrei...
Duvidei de Deus, questionei,
esbravejei...
Me isolei, calei, sofri...
Revoltei, fui pra rua e manifestei...
Fui confundida e me confundi...
Não me encontrei, me perdi...
Desejei ardentemente um colo, um
cafuné...
O consolo Deus me deu quando meu
coração aliviou...
Dói demais e cada palavra lembrada me
faz chorar...
Não encontro o que procuro...
O direito me foi tomado...
Mas quando olho pra lua e lembro que ninguém
a olharia assim
Lembro que além dela, muito além,
Há esperança de que a paz
encontrarei.
Quando ler esta poesia, não fique
alarmado
Pois as palavras não falam, senão do
meu estado.
Me perdoa, não sou poeta como você
E a rima se perde na lágrima que
escorre
E fico por aqui, tentando aliviar a
alma que morre.”
Eu não deixei de conversar com Deus, e o fazia todos os dias,
várias vezes durante o dia, mas eu não podia mais senti-Lo.
Por causa dos meus estudos e do pouco tempo que eu tinha
disponível eu havia abandonado grande parte dos meus amigos.
Já nesta época, me isolei. Não estava mais com os amigos, e agora também havia deixado minha família de lado e eu comecei amar a
solidão e a presença das pessoas perto de mim me incomodava.
Paulatinamente fui enterrando aqueles 2 homens da minha vida.
A cada pá de terra eu afundava um pouco mais junto com eles.
Percebi que eu estava morrendo. Desesperei. Eu precisava de
uma saída.
Eu precisava me agarrar a alguma coisa que me chamasse a atenção,
e que naquele momento pudesse distanciar meus pensamentos da dor.
A dor, a mais profunda, aquela que só tua alma sabe que
existe, dificilmente é percebida por outras pessoas.
As máscaras que usamos também são bons disfarces e por mais
que pessoas que nos conhecem sentem que estamos diferentes, jamais conseguem
perceber a profundidade do abismo e a escuridão em que estamos inseridos e era
exatamente assim que eu estava.
Então decidi estudar ciência política. Assunto que me
intrigava e como gosto de desafios, achei que seria uma boa
alternativa para aquele momento.
Afundei-me em livros e estudos. O que eu não conseguia de
livros reais (de papel), eu baixava em pdf. E foi assim que em janeiro de 2014
troquei alguns livros em pdf com uma prima minha e ela me mandou um livro do
C.S Lewis, e foi este livro que me reconectou com Deus.
Devo dizer que foi um
pequeno fio, tão fino quanto o fio de uma teia de aranha, mas foi o suficiente
para que me fizesse sentir Deus novamente.
Contudo, em julho daquele mesmo ano, logo no inicio das
férias da faculdade, adoeci. Foi como se todas as energias que tinha tivessem
se esgotado com o final de semestre e com as provas abrangentes.
Recuperei-me fisicamente, mas não emocionalmente. Minha fuga
havia terminado e ela só se iniciaria no próximo semestre.
Resvalei e numa fração de segundos eu me encontrei num abismo
muito mais negro e profundo do que eu jamais estivera antes. Não havia outro
pensamento em minha mente do que o de tirar a minha vida e de que aquela seria
a única maneira de me livrar da dor imensa que eu sentia.
Não pense que conselhos, que palavras de amigos dizendo o quão
importante você é, ou de quão boa você é no trabalho que faz muda alguma coisa.
Nada disso faz sentido. Tampouco pensar em sua família, filhos, nada disso
afasta a ideia de que a morte é a solução. É como se naquele estado, se
estivesse protegida por uma redoma de aço, e palavras, atitudes, flores e cores
fossem completamente inúteis e sem penetração alguma em sua alma. Seus
sentimentos e razão estão bloqueados, protegidos e o sentimento de ser ninguém
nem para si e nem para os outros é um pano de fundo para a dor que transborda
em você.
Explicar esta dor? Explique a dor do parto para alguém que
nunca teve filhos...a outra pessoa pode tentar entender, mas jamais
compreenderá e simplesmente não faz sentido.
Durante alguns dias naquela semana, pensei em como poderia
concretizar aquele pensamento que era forte em minha mente. Em vários momentos
cheguei perto. E acredite, não havia pensamento algum que pudesse afastar
aquela certeza. Mesmo que eu quisesse, eles simplesmente não tinham efeito.
Numa manhã acordei. Eu sentia uma dor profunda em meu peito e
lágrimas rolavam pelo meu rosto. Olhei para o lado: meus filhos ainda dormiam.
Novamente os pensamentos de morte vieram forte sobre mim. Mas um pensamento cruzou
como raio minha mente: “Se você se matar, seus filhos vão sentir a mesma dor
que você está sentindo”.
Pensei: “não, eu não quero isso para meus filhos, dói demais!”
Aquele pensamento me assustou. Continuei racionalizado: “se
eu fizer isso, a dor deles será pior do que a minha, porque eu tive tempo de
vida com meu pai, e eles terão a deles diminuída comigo, e quem lhes dará
conselhos? Quem gastará horas conversando sobre coisas da vida, problemas,
política, garotos e garotas? Quem orientará meus filhos?”
Todas estas questões me incomodaram como nunca havia
acontecido antes, e como num piscar de olhos, e com grande remorso, afastei
aquela ideia nefasta da minha mente e ela nunca mais voltou.
Se entendo como uma pessoa se sente quando decide tirar a
própria vida? Sim....infelizmente por experiência própria eu compreendo.
Para aqueles que não compreendem, não julguem. Vocês
não tem ideia do que é isso. Clichês como "isso é falta de Deus, de fé,
é puro egoísmo, e blábláblá"...acreditem...vocês não sabem o que estão falando.
Mas afirmo que assim como a dor do dedo cortado não pode ser
sentida novamente, aquela dor também não. E penso, que se as pessoas que
cometem suicídio tivessem uma segunda chance, assim que aquela nuvem negra de
desespero humano fosse afastada delas, elas teriam certeza de que aquele não
seria o caminho escolhido.
Sinto muito porque às vezes sou falha e não percebo a dor
existente na alma de pessoas que amo, e assim perdi o Sergio e ontem o Airton.
Dor que compreendo, mas que pela distância, pelos poucos
encontros e pelo contato exíguo acabam por deixar lacunas maiores ainda e agora
preenchidas pelo vazio da morte.
Realmente eu sinto muito, e talvez mais ainda por compreender
o tamanho da dor que abate a alma e pelo sofrimento imenso que ela causa.
Mas acredite, se você tivesse uma segunda chance, tenho
certeza de que você venceria a dor e que jamais decidiria assim de novo.
Para aqueles que estão em dor, em sofrimento, deixo aqui
minha experiência, triste, confesso, e que não me orgulho dela, mas é de uma
pessoa real, com sofrimentos, desafios, sentimentos, e com vitórias, principalmente vitórias.
Pode ser que você esteja protegido pela redoma de aço da dor
e que não se sinta atingido por nada, mas creia que haverá uma brecha e que
esta salvará a sua vida. Creia nisso. Lute mesmo sem forças. Mesmo contra a sua vontade procure um médico. Entenda que isso passará. Não perca jamais a esperança. E derradeiramente: não deixe jamais de conversar com Deus, mesmo que isso lhe pareça inútil neste momento, mas saiba que Deus o alcançará.
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