domingo, 14 de agosto de 2016

Plenitude de Vida



Era inicio de outono e o frio chegava de forma brusca para quem estava acostumado ao calor de mais de 25º C todos os dias.
Meu filho e meu sobrinho decidiram acampar.
Nunca haviam preparado um acampamento sozinhos, mas estavam entusiasmados com a ideia.
Primeira coisa foi escolher um local para a fogueira e ali passaram um bom tempo separando lenha e preparando o fogo, com muito papel, e sem muito sucesso. Enfim, depois de muitas tentativas, o fogo apareceu.
Apesar de terem dito que dormiriam ao relento, a ideia não prosperou.
Algumas semanas depois, quando eu pensei que a ideia de um acampamento no quintal de casa já havia se apagado, lá estavam eles novamente preparando uma fogueira. De longe fui dando dicas ao meu filho de como fazer pegar logo um fogo e como montar melhor uma fogueira.
Eles estavam muito animados. Haviam estabelecido que aquele seria uma acampamento de sobrevivência e estavam dispostos a comer somente aquilo que encontrassem na natureza. Chegaram a me dizer que estavam planejando comprar uma galinha, soltar ali no lote e caçá-la com o arco e flecha que o meu filho mesmo fez.
Tudo bem, nosso lote é grande e os pés de bergamota, laranja, poncâ e tangerina estavam carregados. Mas não é época de outras frutas e não havia mais nada ali. E também não havia galinhas para serem caçadas.
Ajeitaram seus sacos de dormir. Ao redor deles, levantaram proteção contra o vento, com tábuas velhas e sob suas cabeças, a cobertura de grandes jabuticabeiras.
Confesso que o ambiente ali estava quente, apesar da noite gelada. Os sacos de dormir já estavam colocados no chão.
Convidei-os para jantar, mas tinham em si um propósito de naquela noite sobreviver.
Achei que estavam assistindo demais programas de sobrevivência, mas no fundo, eu estava orgulhosa deles.
Perto das 8 da noite, entraram em casa, enquanto eu e minha filha jantávamos. Havia uma cuca quentinha e deliciosa sobre a mesa.
Meu sobrinho não resistiu:
- Tia, posso pegar um pedaço?
- Sim, Christian, claro!
O Johann ficou indignado com a quebra de “contrato”:
- Não! É sobrevivência! Não podemos comer!
- Filho, come você também. Vocês não vão aguentar o frio e a noite toda só comendo laranjas e bergamotas.
Rapidamente, pálido de fome, ele sentou-se à mesa junto com o primo e jantaram conosco.
Voltaram ao acampamento.
O frio era intenso e apesar de estar orgulhosa dos meninos, eu, na minha responsabilidade de mãe, não podia deixá-los dormir ao relento.
Lá pelas 10 da noite, cheguei no local do acamp. Os dois dormiam tranquilamente, enquanto eu batia os queixos de frio.
Acordei-os.
Meu filho ficou triste por ter que dormir dentro de casa.
Havia uma luta interna dentro de mim: meu filho estava se tornando um adulto. Ele precisava de experiências próprias, de desenvolver suas capacidades de liderança, de vencer desafios e se tornar forte e eu estava tolhendo dele isso.
Senti-me frustrada e tentei acalmar minha consciência dizendo a mim mesma que era melhor uma frustração do que ele doente.
Será?
A vida é feita de desafios, de enfrentamentos constantes, de alegrias nas vitórias destas conquistas, quer sejam grandes quer sejam pequenas.
Não haveria vitória se não houvesse luta. Não haveria experiência se não fosse permitido o desafio.
Como eu esperava que meu filho fosse um vencedor, um homem na sua plenitude, de formação para o bem se eu não estava propiciando oportunidade, ou não permitindo que ele vencesse seus próprios desafios, exercendo sobre ele uma proteção exacerbada?
As férias de julho chegaram. O frio tornou-se intenso, e estávamos já há algumas semanas com temperaturas abaixo de zero.
Naqueles primeiros dias, apesar do frio ainda rigoroso, nos sentíamos acostumados com aquelas baixas temperaturas e o corpo já não sentia toda aquela intensidade.
Novamente os meninos estavam arrumando lenha no lote, no mesmo local, embaixo das jabuticabeiras.
Meu filho logo me mostrou:
- Olha mãe, fiz a fogueira do jeito que você ensinou. Vamos acender agora o fogo. Vem cá.
Riscaram o palito de fósforo e logo a chama se tornou grande naquela fogueira bem montada.
- Mãe, podemos dormir aqui hoje? Estamos de férias e não está tão frio!
Frio? Estava uns 10º. Mas respondi:
- Podem, desde que seja em uma barraca.
Rapidamente montaram a barraca. Fui checar.
-Ops, cadê a lona?
Mais alguns minutos e me chamaram novamente:
- Olha tia!
Olhei. Haviam colocado uma lona por baixo protegendo o assoalho da barraca, e outra por cima, fazendo ainda um avancê sobre a entrada da barraca com a abertura para o lado da fogueira.
Desta vez não estavam mais pensando em matar galinhas e nem comer só laranjas e bergamotas.
Vieram jantar em casa e depois foram pra barraca, enfiando-se em seus sacos de dormir.
Visitei-os ainda antes de dormirem. A fogueira ardia e o calor ali era acolhedor.
A lua cheia iluminava todo o lote e o frio parecia mais intenso.
Na manhã seguinte, com um frio de 2º, fui ver como estavam os sobreviventes.
Um já acordado e outro ainda em sono profundo.
Mais tarde, reascenderam a fogueira e colocaram wafers em espetos de galhinhos de jabuticaba e os tostaram na fogueira pra derreter o chocolate. 
A plenitude da vida, de boas experiências que podemos proporcionar aos nossos filhos depende também de nós.
Somos lanternas para os seus caminhos. Somos instrumentos de Deus para guiá-los no melhor caminho.
Somos um presente de Deus para eles, para que com nossa capacidade de amor incondicional, possamos prover o melhor em experiências e amor para eles, para que então,  eles possam alcançar o que sonhamos para eles: a plenitude da vida!!





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